segunda-feira, 28 de junho de 2021

É Só Passado

- Só vou tomar um banho e a gente já sai, tá?
Natália virou-se pronta para se atirar na cama, mas Danilo a segurou pelo braço e puxou-a pra si.
- Achou que ia escapar sem um beijo?
- Nossa, que carência, hein?
Um pouco sem graça com a brincadeira da namorada, ele sorriu e deu um beijo rápido nela, antes de sumir atrás da porta do banheiro. E ela finalmente desabou na cama. Não se importou muito com o fato de que estava amassando a blusa e enchendo seus jeans com pelinhos do cobertor, nisso ela dava um jeito depois. Queria apenas dormir por meia horinha. Danilo não ficaria pronto antes de disso, mesmo.
Bastou Natália fechar os olhos para seu celular a incomodar com uma notificação. Muito a contra gosto, ela acendeu a tela para ver o que sua chefe queria àquela hora, mas em vez de uma mensagem de trabalho, viu o ícone do Instagram seguido dos dizeres "ribeiro.carlos começou a seguir você". Ela parou por alguns segundos, olhos paralisados na tela e o cenho um pouco franzido, antes de abrir o aplicativo para ver o perfil de ribeiro.carlos.
Assim que a primeira foto carregou, ela confirmou: era Carlos Delvigno Ribeiro, o Garça, seu antigo colega de escola. Não se falavam havia anos e nem sequer eram amigos no Facebook, então como raios ele a havia encontrado?  Tudo bem que o username de Natália era bem fácil e óbvio, nome e o único sobrenome, sem nem um pontinho entre eles, mas porque o Garça a procuraria no Instagram? Será que tinha se encontrado com alguém da escola e decidido retomar contato com todo mundo? Ou alguma lembrança de origem aleatória? Enfim, isso não importava, era o Garça. E agora ele a seguia numa rede social.
Costumavam ser grades amigos, do tipo que podiam passar horas ininterruptas conversando, sobre qualquer coisa que brotasse na imaginação de um dos dois. Riam um do outro e de si mesmos, sem medo nenhum de passar vergonha. Era uma amizade fácil, confortável, que não causava dor de cabeça. Exceto pelo fato de que Natália ficava um pouco frustrada por ser só isso. Só amizade. Mas preferia continuar com aquele amigo pra todas as horas, todos os dias, do que se arriscar para ter um namorado. Ela até desconfiava de que ele sentia o mesmo, os amigos dele sempre faziam brincadeiras sobre a proximidade dos dois, e nunca de uma forma maldosa, talvez como se quisessem avisá-la de algo. Só que isso deveria ser coisa da cabeça dela, onde já se viu, o Garça gostar de uma menina que nem ela?
Carlos Delvigno Ribeiro recebera o apelido de Garça porque era impossível não reparar no comprimento de suas pernas. Não era magro e nem alto o suficiente para justificar pernas tão longas. Sempre precisava segurar o passo quando andava com amigos, ganhava todas as corridas das quais participava e tornava a vida de quem decidia se sentar na sua frente na sala de aula um inferno. Não era um exemplo de beleza, mas de tão simpático e bem humorado conquistava todas as garotas. Eram raros os casos em que, depois de uma semana de convivência, a menina não sentia no mínimo uma grande simpatia por ele.
Mas todo esse carisma desapareceu de uma hora para outra nas férias de julho do 1º ano do ensino médio. Já há algum tempo, os traços sem sal e infantis de Carlos estavam dando lugar a um rosto de rapaz bonito. E a natação, recomendação médica, transformou seu corpo ligeiramente rechonchudo em algo, digamos, mais desejável esteticamente. Assim, as garotas passaram a achar mais interessante olhar para ele do que conversar com ele. E lá se foi a simpatia por água abaixo, levando com ela a amizade com Natália, pois uma constante companhia feminina quando se está querendo conquistar garotas não pode ser considerada uma estratégia muito boa.
Não se falaram mais. Simples assim. Natália se lembrava muito bem de ter ouvido Carlos comentar com um amigo: "aquilo era amizade de criança. Sabe essas coisas idiotas que criança faz? Então. Ela precisa se tocar disso e sair do meu pé". Decidiu nem gastar saliva respondendo àquilo e se conformou com o fim da amizade. "Antes assim do que continuar convivendo com alguém desse tipo".
Não admitia para ninguém, nem para si mesma, o quanto aquilo doía, o quanto sentia todos os seus órgãos serem picotados em pedacinhos minúsculos quando encontrava Carlos. E se não admitia isso, também não admitiria que doía não apenas pela amizade, mas principalmente por ser o fracasso do seu primeiro amor. Doía por se afastarem daquele jeito sem ela saber se chegou a ter alguma chance com ele, por menor que fosse. Doía porque ela sabia que apesar da atitude de Carlos, ela se lembraria dele para sempre e se tornar indiferente a ele seria impossível.
Olhando as fotos no Instagram confirmou isso. Aquele rosto, ligeiramente mais velho, ainda provocava alguma coisa nela. Não era amor, não era raiva, não era algo forte, não era nada que ela soubesse explicar. Era só... alguma coisa, que se remexia de uma lado para o outro dentro dela, querendo sair, mas não sabendo que forma tomar. Olhar para Carlos fazia um sorriso passar pelo seu rosto, muito rápido, e também fazia com que ela sentisse uma pontinha de inveja das garotas com quem ele aparecia abraçado nas fotos. Talvez pudesse ter sido ela...
Neste momento, Danilo saiu do banheiro já pronto para sair. Simples como sempre, o sorriso sem motivo algum de sempre e envolto pela névoa de vapor do chuveiro. Natália não pode evitar o aparecimento de um pequeno espaço entre seus lábios e o olhar meio abobado sobre o namorado.
- Que foi? O cabelo tá feio assim? É melhor eu passar gel?
Ela riu e se levantou num salto, nem percebendo que o celular tinha caído no chão, e abraçou a cintura do namorado.
- Tá lindo, amor.
- Você acha que posso confiar em um pessoa que me chama de lindo até quando eu acabei de acordar?
- Acho que você pode confiar em uma pessoa que te ama. Só isso.

Natália já não tinha a mínima ideia do que estivera vendo na última meia hora. 

sábado, 4 de julho de 2015

Sou Mais Do Que Minha Pele

Eu disse que voltaria, não disse?
Mas infelizmente o que me levou a escrever hoje não foi uma súbita inspiração nem uma alegria que preciso compartilhar com vocês; muito pelo contrário.
Minha amiga deu um like nesse vídeo e ele acabou aparecendo pra mim, e duas coisas me fizeram clicar nele: falta do que fazer (hehe) e uns bons nove anos de convivência com a acne.
Comecei a ter espinhas lá pelos dez, onze anos, ou seja, bem antes de todos os meus colegas. Eu tentava me "consolar" pensando que quando eles começassem a passar pelo que eu estava passando, minha pele estaria voltando a ser o que era antes. Mas isso não aconteceu. Pra piorar minha situação, apenas os garotos - e ainda assim nem todos - ficaram com o rosto coberto de espinhas. Nenhuma menina teve acne; todas tinham pele de pêssego. 
Muita gente me olhava com nojinho e de vez em quando surgia um comentário: "espinha é coisa de gente porca, que não lava o rosto". Pena que naquela época eu era tímida demais pra responder: "olha, minha querida, se isso fosse verdade eu agradeceria. Porque aí toda a rotina que tenho faria minha pele ser mais lisa do que bumbum de bebê". Sério, meus pais gastaram uma pequena fortuna com dermatologistas, ácido salicílico, peróxido de benzoíla, sabonetes e protetores solares feitos em farmácias de manipulação. Até Roacutan eu tomei. Mas as espinhas continuavam ali.
Com dezenove anos eu voltei a ter uma pele mais ou menos normal. Algumas - muitas - marquinhas pelo rosto, mas sem aquela vermelhidão dolorida de antes. A ironia foi que isso só aconteceu depois que eu parei de passar milhares de produtos antiacne, de tão cansada que eu estava de não ver resultado algum.
Eu vi boa parte da minha adolescência resumida nos três minutos do vídeo. Todos os comentários maldosos e completamente desnecessários sobre minha pele, as brincadeiras ridículas que alguns faziam comigo e outros me diziam pra relevar por ser "coisa de adolescente" e os sentimentos horríveis que essas coisas causavam em mim. Algumas pessoas realmente não entendem o sofrimento que é ver seu rosto tomado por bolas vermelhas, doloridas e inflamadas. E não contentes em não entender a situação, fazem questão de deixá-la ainda pior. 
Alguém poderia, por favor, me explicar a graça de ofender uma pessoa com acne? Ou então por que ter acne te faz menos digno de respeito do que uma pessoa com a "pele boa"? E o que faz alguns pensarem que podem postar comentários como "não consigo nem olhar para ela", "o que há de errado com o rosto dela?", "nojento", "eca" na foto de outra pessoa? 
É comum para quem tem acne ter uma autoestima que já não é grande coisa. Agora, imagine o quanto essa autoestima despenca depois de ouvir "seu rosto é repugnante". Ou melhor, nem precisa imaginar. No próprio vídeo aparecem comentários de pessoas que sofrem com isso: 
  • a acne me faz sentir como se eu não valesse nada
  • ela me faz chorar
  • eu tinha vontade de me matar
  • sofro bullying por causa da minha pele
  • usar maquiagem me faz sentir melhor
  • ter acne me deixa deprimido
É sério que estamos fazendo com que as pessoas precisem se esconder atrás de bases e corretivos para se sentirem bem, se sentirem aceitas? Também é sério que estamos dando tanto valor para a beleza externa que a suposta falta dela faz com que pessoas sintam que não têm valor? Não é possível que não enxerguemos o quão errado é tudo isso.
Mas dois comentários me fizeram sorrir um pouquinho. 
"Sou mais do que minha pele"
"Estou aprendendo a me amar"
Se eu pudesse, falaria isso para todos que estão passando pelo que eu passei. Nós precisamos saber que só nós mesmos determinamos o que somos, o quanto valemos e que se nos amamos como somos, não importa o que dizem de nós. 
Podem me chamar de feia, dizer que minha pele é nojenta. Eu sei que sou linda. E sei que um dia as espinhas vão embora. Já o seu caráter...


domingo, 28 de dezembro de 2014

Segredos, Conflitos e Amor - Cap. 43

Olá pessoas! Apareci hoje só para vocês não se magoarem muito comigo, dizendo que as postagens de 2014 acabaram em setembro hehe Bem, antes de mais nada, preciso comunicar algo que já devem ter percebido: postar está muito difícil. Escrever então... impossível. Esta é a última parte de SCA e não tenho nenhuma outra história pronta, que eu me lembre (talvez fuçando o computador dos meus pais eu ache alguma coisa). Então estou aqui para lhes dizer até logo! Não é adeus porque vou voltar algum dia, juro! hahaha Sinceramente espero que gostem do final de SCA, mesmo tendo demorado tanto para ser postado! Beijos! ;)

            — Pela hora já deva ter chegado em casa.
            — Exatamente. Na SUA casa. To aqui no portão.
            — Por que não falou logo? Eu vou ai abrir.
            — Não precisa. Sua mãe me deu uma cópia das chaves, lembra? Pra vir aqui conferir se a senhorita está bem de vez em quando.
            — E por que não entrou ainda?
            — To preparando uma surpresa. Daqui a pouco eu entro.
            Ele desligou, se sentou na calçada, pegou o estojo, o bilhete e começou a escrever. Dali a alguns minutos, bateu na porta do quarto.
            — Entra logo, Sasha.
            Por uma fresta na porta, o rosto dele apareceu.
            — É seguro entrar no mesmo recinto de uma louquinha desvairada?
            Antes que uma almofada o atingisse, ele fechou a porta. Mas entrou logo em seguida. Maria estava pálida, e abriu um sorriso quando o viu.
            — Você contou pra alguém?
            — Não, nem pra Calina. — ele se sentou na cama.
            — Perdi alguma coisa de interessante?
            — Não… mesmos assuntos de sempre, o mesmo blábláblá dos professores. Mas com certeza a sala tava muito mais sem-graça sem você lá.
            O coração de Maria dava pulos de alegria.
            — Mas qual é a surpresa que você tava preparando, afinal?
            — Ah, ta aqui.
            Ele puxou o bilhete do bolso da calça e entregou para Maria.
            — Mentira que você pegou isso do lixo…
            — Nem ta tão ruim assim, ainda mais depois das mudanças que eu fiz.
            Maria começou a buscar as tais “mudanças”. Viu que ele tinha coberto algumas manchas de sangue fazendo corações em cima e… ela mal podia acreditar no que estava vendo. A frase no rodapé da página não dizia mais a mesma coisa. Com algumas palavras riscadas, agora estava escrito: “ser seu namorado não vai ser fácil, vou ter que fazer sacrifícios como esse só pra te agradar! Mas no fim vai valer a pena, porque quando precisar de abraços e carinho você não vai poder me negar um favorzinho desses! Brincadeira… ah, só mais uma vez: TE AMO, namorada linda”. Incrédula, Maria levantou os olhos para Sasha.
            — Aceita?
      Ela pulou no pescoço dele, que estava explodindo de alegria por dentro. Rafael que o desculpasse, mas ele sim tinha conseguido conquistar o coração daquela garota linda. Com o rosto enterrado no pescoço de Sasha, Maria sentia aquele perfume, a melhor droga para o seu cérebro. Aquele perfume que a fazia esquecer do mundo, de todos os problemas que quase separaram os dois para sempre. Enquanto muitos sentiriam que poderiam morrer de amor naquela hora, ela queria viver. Viver de amor.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Esse é o Perigo

Meu celular apitou avisando que eu tinha uma nova mensagem. Nem precisei pensar para minha mão ir até ele com extrema rapidez e acender sua tela. Quando vi que era você, só consegui pensar “finalmente me respondeu!”, e depois de ler o que tinha escrito - uma frase nada especial - não pude evitar um suave curvamento dos meus lábios.
Foi aí que outro alarme apitou, mas dessa vez dentro da minha cabeça. Era como se gritasse no meu cérebro “alerta vermelho! Perigo à frente!”. Coloquei o celular sobre meu peito e fiquei mirando o teto na escuridão, um pouco atordoada com o que tinha acabado de acontecer, com o que eu tinha acabado de perceber.
Até aquele momento, você era só… você. Só alguém com quem eu tinha conversas agradáveis, que vez ou outra se baseavam em comentários ácidos sobre pessoas específicas. Só um conhecido que me dava conselhos em alguns momentos de leve desespero.
Sim, “conhecido”. Não ouso usar a palavra “colega”, muito menos “amigo”. Você não passava de uma pessoa que arrancava algumas gargalhadas de mim às custas de piadas ruins. Aliás, preciso lhe confessar: na maioria das vezes eu não ria das piadas em si, mas de quem as contava. Você se empolgava tanto que era difícil não achar graça.
Antes de eu sorrir por causa de uma mensagem banal, você era apenas o rapaz que me olhava estranho sempre que me encontrava escondida em um canto, lendo, ou que ria das caretas que eu fazia quando presenciava o comportamento histérico de amigas se encontrando. Você era o rapaz que me entendia ridiculamente bem mesmo me conhecendo pouco, talvez pelo excesso de características e gostos em comum.
Mais um apito do celular. Uma mensagem pouca coisa mais longa do que a última. “Acho que vc dormiu... falo demais msm /: boa noite!”.
Mais um sorriso meu.

Eu definitivamente estava em perigo. 

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Segredos, Conflitos e Amor - Cap. 42

            — Sasha você sabe por que a Maria faltou hoje?
            Impaciente, ele mal começou a frase e já estava saindo do banheiro.
            — Se você não sabe da sua namorada como é que eu vou saber?
            Rafael segurou Sasha pelo antebraço.
            — Namorada? Como assim?
            Sasha puxou o braço com força.
            — Sem essa, cara. Eu sei que você estão namorando.
            — Bem que eu queria dizem que sim, e você sabe disso. Mas a Maria não quer nada comigo. Mas afinal, você sabe ou não porque ela faltou hoje?
            — Não.
            Era quase impossível descrever o que Sasha estava sentindo naquela hora. Alívio, alegria por saber que ainda tinha chances com Maria; um pouco triste por saber que seu amigo também estava triste. Ele só tinha certeza de que queria que o último sinal tocasse, para poder finalmente falar com a única garota que ocupava sua mente há muito tempo.
            Parado no portão de Maria, ao invés de tocar a campainha, Sasha pegou o celular. Quatro toques depois, ouviu uma voz rouca.
            — Só você mesmo pra me tirar do repouso, né?
            — Eu também estou bem, obrigado por perguntar.
            — Não sei se o “também” pode ser usado nessa frase… eu to qualquer coisa menos bem.
         — Então agora você vai ficar ótima. Adivinha onde eu estou? — enquanto falava, Sasha reconheceu um papel que estava caindo do saco de lixo. O bilhete que tinha feito para Maria, com algumas gotas de sangue. Com certeza ela estava com ele na sexta-feira.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Quase Um Recomeço

Hm... três meses e meio sem aparecer. Que vergonha não? A pessoa que começa a escrever um blog deveria ter noção de que assumiu um compromisso, não acham? hahaha Brincadeiras a parte, daqui a pouco eu explico o motivo do sumiço. 
Quem lê o blog há um tempinho deve ter esbarrado com o texto campeão no quesito drama, "Não é Medo do Vestibular". Sim, eu estava surtando, à beira de um colapso nervoso, e tudo por causa de uma prova que - vamos continuar com o drama - poderia mudar minha vida. Ou melhor, um ano dela. E é por isso que eu falava na época e insisto em dizer isso hoje: eu odeio vestibular. A ideia de, em algumas horas, medir o conhecimento que uma pessoa adquiriu ao longo de anos me parece ridícula, completamente descabida. Eu adoraria ser uma daquelas pessoas que lidam bem com avaliações assim, mas faço parte do grupo que entra em pânico, chora e se descabela só de colocar o pé fora de casa, indo para a prova. E se fico assim no trajeto, vocês podem imaginar meu estado ao sentar e ficar frente a frente com o caderno de questões, não?
Felizmente, saí viva dessa experiência. E me saí bem, diga-se de passagem.
Justo no dia da divulgação dos aprovados, meu computador resolveu que não queria funcionar, me obrigando a usar a internet do celular, que, diga-se de passagem, também não estava em seus melhores dias. Quando o resultado foi publicado, eu tremia tanto que fechei a guia acidentalmente umas três vezes. Depois de uns cinco minutos sofrendo consegui abrir a tela e dar zoom. E lá estava meu nome. Eu não conseguia acreditar que o simples fato de ver meu nome em uma lista podia me deixar tão feliz. Já que estava com o celular na mão, liguei para o meu pai. Não sei dizer qual dos dois chorava mais.O que eu sei é que, uma semanas depois, no dia em que me mudei, eu era a única chorando no carro.
Eu sabia que a casa para a qual eu olhava nunca mais seria minha casa. Seria sempre a casa dos meus pais. Ainda que eu tivesse sonhado por muitos anos com o dia em que moraria sozinha, nunca tinha me passado pela cabeça que isso doeria tanto.
Ainda bem que o sofrimento durou só até o começo definitivo da minha vida universitária, que apesar de ser tranquila por enquanto - afinal, vida de bixo é fácil, convenhamos - , me exige tanta correria e ocupa tanto a minha mente que eu só conseguia lembrar de sentir saudade de casa nos fins de semana. E depois de um tempinho descobrindo todas as vantagens e perrengues de morar a centenas de quilômetros da minha mãe eu percebi que dificilmente vou querer voltar pra debaixo das asas dela. Afinal, usar as minhas é muito mais divertido.

quinta-feira, 27 de março de 2014

Segredos, Conflitos e Amor - Cap. 41

Uhuuu, voltei! Pausa de 20 dias é aceitável? Espero que sim, porque daqui em diante não garanto nada semanal, não hahaha mas aproveitem mais um capítulo: 
            Sasha não se conformava com o fato de que Maria e Rafael estavam juntos. O pior era que isso era tudo o que se passava na sua cabeça há dois dias, e quando achava que tinha conseguido fugir do assunto, algo o lembrava dele de novo. Mas naquele momento ele perdeu a paciência, cansou de não fazer nada e decidiu ir conversar com Maria, dizer o que sentia, sem dar muita importância para as consequências. Trocou de roupa e foi até a casa dela.
            — Ué, a Maria esqueceu o portão aberto? — ele entrou e trancou o portão — A porta também?
            Sasha começou a ficar preocupado. “De novo não…” foi tudo o que pensou antes de sair pela casa chamando a amiga, até a encontrar na cozinha.
            A cena era a mesma de alguns meses antes. Maria estava sentada no chão, o rosto encharcado de lágrimas, um olhar vazio, com sangue escorrendo pelo braço esquerdo e uma faca na mão direita. Sem nenhuma palavra e agindo meio por impulso, Sasha tirou a camiseta e a amarrou bem apertada no pulso de Maria. Ele correu até o telefone, chamou uma ambulância e avisou a mãe de Maria. Quando voltou para perto da garota, ela o abraçou e voltou a chorar.
            — Ta tudo bem agora. Se acalma. Sua mãe e a ambulância já estão vindo.
            Os dois não se soltaram até que a mãe de Maria chegou gritando o nome da filha.
            Maria ficou bem, mas o médico recomendou que ela ficasse em casa por uma semana, para evitar qualquer tipo de estresse, e exigiu que ela voltasse a freqüentar o psicólogo.
            Na segunda-feira depois de tudo isso ninguém além de Sasha sabia o que tinha acontecido. Durante o intervalo, assim como alguns dias antes, ele foi para o banheiro, se apoiou na pia e ficou olhando para o espelho. Até que Rafael apareceu.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Flores no Lixo

A noite era de festa, mas tudo o que Larissa queria era sair logo daquele auditório; feito isso, deletaria os últimos oito anos, teria uma nova imagem e a chance de uma nova vida.
Se tudo desse certo, estaria indo para outra cidade morar sozinha dali a dois meses. A solidão não a incomodaria, com certeza. A única companhia para o fim de semana com a qual ela estava acostumada eram seus livros, DVDs e cobertores. Deixá-los todas as segundas-feiras era horrível. Ir para o colégio era horrível. Saber que muita gente a procurava apenas para conseguir cola em provas e lições para copiar era horrível. E ela sabia que era horrível de sua parte rir sempre que pensava em como seria a vida acadêmica dessas pessoas sem ela.
Ao acordar naquele dia, pensou em tudo isso. Ligou a internet e viu aquelas dezenas de comentários com coisas como “vou sentir falta disso!”, “minha vida não será a mesma sem ver vocês todos os dias!”, “fico feliz em saber que a amizade não acaba por aqui”. A primeira coisa que passou por sua cabeça: “hipócritas. Passam a vida ofendendo uns aos outros e hoje querem fingir que são amigos…”.
Colocou seu vestido, maquiou-se e foi para sua formatura. Encontrou meia dúzia de pessoas com quem realmente se importava e passou a rezar para que tudo acabasse o mais rápido possível.  Olhava para os sorrisos e lágrimas que a rodeavam e sentia pena. Não dela própria, mas daqueles que pareciam acreditar que estavam sofrendo.
Diplomas entregues. Um professor começou a discursar.
— Acabou. Vamos lá, podem ficar felizes! Sei que…
A partir daí Larissa não processou mais nada. Só voltou à realidade quando a chamaram por ser a primeira de sua turma.
Recebeu um certificado e flores. Deu um sorriso amarelo para as câmeras.
Ao pisar fora do prédio, jogou o buquê no lixo mais próximo.
“Chega de passado”.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Segredos, Conflitos e Amor - Cap. 40

Siiim, SCA vai ter continuação! Pela primeira vez a pausa - muito - prolongada nas postagens não foi culpa minha, eu estava sem computador, sem internet, enfim. Mas agora vou cumprir com meu dever: postar!

            — Maria, quer ir lá em casa? Vou ficar sozinha a tarde toda e pensei em assistir um filme. Que tal?
            — Ah, valeu por me chamar Calina, mas to só o pó. Se eu fosse ver um filme, ia dormir nos cinco primeiros minutos! Chama o Sasha, ou o Rafa, eles com certeza aceitam.
            — Acho que não… o Sasha anda meio fechado, nem conversa direito, e o Rafa… melhor não.
            — Então a gente marca outro dia. Mas to indo, porque meus olhos mal ficam abertos!
            Quando chegou em casa, Maria foi logo jogando a mochila no sofá, e um papel todo dobrado caiu de dentro dela. Era o bilhete que Sasha tinha escrito uns quatro dias antes, mas que ela não tinha prestado muita atenção quando leu. Só se lembrava de que seu nome estava escrito bem grande no meio da folha com caneta vermelha. Assim que o abriu, seu coração parou por cinco segundos, e depois ficou apertado, angustiado. Em volta do nome, Sasha tinha escrito com canetinha preta “te amo” várias e várias vezes e feito corações vermelhos em volta de todos. Na parte de baixo da folha, a frase: “ser seu amigo não é fácil, tenho que fazer sacrifícios como esse só pra te agradar! Mas no fim vale a pena, porque quando preciso de dinheiro para o lanche você não pode me negar um favorzinho desses! Brincadeira… ah, só mais uma vez: TE AMO, amiga chata”. Uma lágrima escapou pelos olhos fechados de Maria.
            — Amiga, amiga… será que você não entende que eu não quero ser só sua amiga?
            Apertando o bilhete contra o peito, ela foi para a cozinha.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Ser Nerd é Pop... Será?

A vida nunca foi tão maravilhosa para aqueles chamados de “nerds” quanto é agora. Seus filmes, seus livros, séries, jogos favoritos e eles próprios nem podiam imaginar que um dia estariam em voga e seriam amados, não ridicularizados. Não ousavam sonhar em ter seu estereotipado estilo almejado e copiado ou em serem populares. Mas a vida dá voltas.
Antes, gostar, ser um grande conhecedor de Star Wars ou Star Trek fazia os outros te associarem com rapazes espinhentos, feios, usando óculos de “fundo de garrafa” e altamente antissociais. Hoje, é motivo de orgulho, é ser “cult”.
Óculos costumavam ser um empecilho. Agora são um acessório desejado por muitos. Saber química, matemática e, principalmente, física servia apenas para ter colegas de classe querendo copiar suas lições, hoje... Ainda serve para isso.
Mas a pergunta que ninguém quer responder é: de que adianta tudo isso se no fim os “nerds” continuam tendo a mesma importância que sempre tiveram? Ou seja, quase nenhuma?
Porque “nerd” é mais do que filmes e séries; é mais do que uma forma de se vestir. É gostar – e muito – de aprender, é ter um conhecimento extraordinário, é ter na ponta da língua aquilo que a maioria pena para lembrar, é ser quase uma enciclopédia ambulante – sem nenhum sentido pejorativo.
E, infelizmente, hoje não vale a pena ser inteligente. O que vale é ser esperto, saber a melhor forma de ganhar dinheiro fácil. Para receber uma bolsa de estudos nos EUA, não cobram mais QI, cobram um rostinho bonito. Dormir em cima de livros, cadernos, apostilas... para quê? Ser inteligente é tão cafona...

domingo, 29 de dezembro de 2013

Não é Medo do Vestibular

Gente, eu sei que me excedi um pouco no quesito drama, mas eu precisava desabafar um pouquinho hahaha E quero saber de quem já prestou vestibular: vocês também se sentiram assim?

Daqui a uma semana começa a segunda fase do vestibular mais famoso e mais amedrontador do país: Fuvest.  São três dias de sofrimento voluntário de mais de 30000 vestibulandos que sonham com uma vaga na USP. Eu estou incluída nesses milhares de “masoquistas”.
Assim como muita gente, comecei o processo pré-vestibular junto com o ensino médio, minha ansiedade se iniciou ainda em janeiro e passei este ano frequentando um cursinho que tomou praticamente todos os meus sábados do ano, onze horas por dia, e até alguns domingos. Porém, não posso dizer que me sinto pronta para superar os outros dois candidatos que disputam a mesma vaga que eu.   
Nas duas últimas semanas não houve um único dia em que eu não chorei de desespero, ou por não entender os conteúdos que estou revisando – e que já não tinha entendido antes – ou por medo de esquecer tudo durante as provas. Tá, eu sou dramática, tenho consciência disso. Mas, para ser sincera, eu não me importaria muito em prestar vestibular quantas vezes fossem necessárias. O “problema” é minha família. Meus pais, para ser mais precisa.
Sei que uma não-aprovação doeria muito mais neles do que em mim porque sei o quanto eles batalharam e se sacrificaram para me manter em uma escola particular por oito anos. Sei o tamanho da expectativa deles, construída por dezenas de boletins repletos de notas nove e dez. Sei que eles não querem que eu sofra o tanto que eles sofreram e que uma boa faculdade me ajudaria bastante nisso.
Agora sei que sempre ao me cobraram, de vez em quando com um pouco de exagero, meus pais queriam evitar que eu passasse pelo que estou passando, por esse desespero. Agora entendo os nãos em resposta aos pedidos para sair com meus amigos quando eu tinha compromissos relacionados aos estudos. Agora compreendo por que era terminantemente proibido faltar na escola. Agora meu maior medo não é não ver meu nome na lista de aprovados. É ver a decepção nos olhos das pessoas que mais amo, mesmo que me digam “na próxima você consegue”.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Não Sei Fazer Redação

O texto de hoje é resultado de uma sugestão do meu professor, que disse ter feito algo parecido quando criança. Devo ter sido a única da minha sala a acatar a sugestão, mas tudo bem hahaha

Já estou aqui há mais de meia hora e ainda não desenvolvi uma tese. Sim, porque hoje minhas redações não têm começo, têm - ou deveriam ter - tese. Ah, a vida do primário era tão fácil... bastava escrever uma historinha, com começo, meio e fim e a "tia" elogiava, achava aquele pedaço de papel com 15 linhas escritas uma maravilha! Agora me obrigam a fazer uma coisa que é impossível para mim: transmitir ideias, defender um ponto de vista e fazer os outros acreditarem nele. Pelo papel.
Eu. Não. Sei. Fazer. Redação. Não ganho uma discussão nem ao vivo, olhando para a pessoa, quanto mais sem saber quem ela é.
E não é falta de leitura da minha parte. Leio Poe, Wilde, Veríssimo, Machado, Drummond, Rowling e muitos outros. Mas obviamente há uma diferença entre nós. Eles provavelmente sabiam fazer uma redação quando frequentavam a escola. Boas redações, sobre assuntos relevantes. O máximo que arranco de minha caneta, e ainda assim, sob muita tortura (tanto dela quanto minha), é meia dúzia de linhas sobre "as minhas férias". Ou seja, muito menos do que as benditas vinte linhas exigidas.
Aliás, por que vinte linhas? Se o objetivo é transmitir ideias, uma ou duas linhas bastariam, quem quisesse saber mais que me procurasse. Duvida? Pois bem, eu acho que deveríamos parar de fazer redações, economizar papel e cortar menos árvores. Seria um mundo tão feliz...

sábado, 14 de dezembro de 2013

Segredos, Conflitos e Amor - Cap. 39

Gente, peço desculpas mais uma vez pela demora, mas minha vida tá meio corrida e bagunçada :/ Final de ensino médio não é mole, não, meu povo. Mas curtam aí!

     Mas toda a sua alegria acabou na hora do intervalo. Rafael tinha chegado na segunda aula e não tinha trocado uma única palavra com ninguém até aquela hora. Enquanto saíam da sala, ele cumprimentou Miguel, Calina, Sasha, Fumio e quando foi falar com Maria, ele desviou do beijo no rosto para um selinho. Alice ficou boquiaberta. Sasha disparou como um raio para o banheiro. Ninguém mais além deles viu a cena.
            — Rafa, olha… aquilo que aconteceu ontem… não era pra ter acontecido.
            — Se não era pra ter acontecido, por que aconteceu então? — ele tentou tocar o rosto de Maria, mas ela virou para o lado. Ele riu pelo nariz — Você ta brava comigo, né?
            — Não, não to. E nem pretendo ficar. É por isso que eu quero que a gente esqueça o que aconteceu. Não quero estragar nossa amizade.
            — E quem disse que isso vai acontecer?
            — Eu. Eu to dizendo.
            — Ta, tudo bem. Prefiro continuar por perto, mesmo que seja só como amigo. Me desculpa.
            — Não tem o que desculpar. Mas se a gente enrolar muito aqui na sala, vamos ficar passando fome o resto do dia, porque vão esvaziar a cantina!
            “Perdi a Maria. Justo para o Rafael, um dos meus melhores amigos. Eu devia ter feito alguma coisa.”
            Sasha estava com as mãos apoiadas na pia, se olhando fixamente no espelho. Não podia acreditar no que tinha visto. Mas ele estava decidido a não comentar nada com nenhum dos dois. E também decidiu se afastar de Maria. Seria melhor assim.
         A discussão de Maria e Alice continuou sendo assunto nos dois dias seguintes e por mais que tentasse ignorar, aquilo estava começando a irritar Maria, e muito. Para piorar a situação, Sasha não conversava mais com ela e mal dava bom dia e tchau; e ela não tinha a mínima ideia do que tinha acontecido para ele ficar assim. Alice sempre dava aquele sorrisinho ridículo e dizia “cadê a ameaça agora?” quando passava por ela. E, claro, Rafael também estava diferente. Parecia que o universo conspirava contra Maria. Pelo menos já era sexta-feira e ela estava indo para casa.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Todas São Plus Size

Robyn Lawley
Quem me conhece pessoalmente pode nem desconfiar - e até duvidar - do fato de que eu adoro moda. Sério. Sigo pelo menos uns cinco blogs de moda, beleza e afins. Posso não colocar muito do que vejo em prática, mas acho que se trata de um universo fascinante. Cores, tecidos, cortes, texturas, enfim. Mas não é preciso ter o mínimo contato com moda para saber que as mulheres mais gordinhas costumam ser excluídas desse tal universo.
Foi por esse motivo que surgiu o movimento plus size. Não são quilos extras que vão impedir as mulheres de se vestir bem, assim como não são eles que as tornam menos bonitas do que as moças magras. Infelizmente, aqui no Brasil a ideia do plus size ainda está em processo de difusão e são poucas lojas que têm opções variadas de roupas para esse público, e não somente as costumeiras peças com cara de "tia".
Mas basta fuçar um pouquinho a internet para achar ótimos blogs que dão dicas para as gordinhas de como se vestir maravilhosamente bem, e o Grandes Mulheres - que acompanho há bastante tempo - é um deles. E foi por ele que fiquei sabendo de um assunto meio polêmico.
Semana passada a revista Cosmopolitan fez um ensaio fotográfico de moda praia supostamente plus size. Por que supostamente? A modelo, Robyn Lawley, é, sim, uma modelo plus size. MODELO. E considerando que as modelos "normais" vestem de 34 a 36, no máximo 38, uma mulher como a Robyn tem realmente quilos a mais, e gostosura a mais também, diga-se de passagem. Mas não para algumas gordinhas, que se sentiram insultadas. Afinal, se Robyn é gorda, elas seriam o quê? (e confesso que me fiz a mesma pergunta)
O sururu começou aí. A maioria das pessoas concordava que não tinha cabimento enquadrá-la no plus size. Ela e todas as outras moças com corpos assim. Porém, bastante gente dizia que se isso não fosse feito, tais moças seriam mais uma vez excluídas, por não se encaixarem em nenhum dos dois modelos, no de magreza ou de gordurinhas.
Mas pensem comigo: será que um rótulo importa tanto assim? É claro que é importante as gordinhas terem um espaço garantido em um território antes habitado apenas por mulheres macérrimas, só que daí a esquentar a cabeça com uma designação para passarelas é um pouco demais.
A curiosidade me fez descobrir que o termo plus size é válido para mulheres que vestem a partir do 40/42. Eu pergunto: quantas mulheres, não no mundo, podemos reduzir a escala apenas ao Brasil, vestem de 34 a 38? Com certeza um número bem abaixo da metade da população feminina, não? Então... somos todas plus size? Todas vestimos um "tamanho maior" que o padrão? Sendo que nós somos o padrão? Até quando as mulheres serão levadas a acreditar que, por terem corpos como o da Robyn, são gordas?
E é engraçado ver algumas situações do cotidiano. Eu sou personagem de muitas delas, e uma em especial me faz rir hoje, porém, na época, fez com que eu me sentisse meio deprimida por não ser magricelinha. Durante uma conversa com duas amigas, ambas pequenininhas e bem magras, o assunto "numeração do jeans" veio à tona. As duas vestiam 36, e eu, 42. O silêncio e as expressões delas só serviram para me fazer sentir vergonha. E foi assim que eu me senti por muitos anos, envergonhada por vestir 42 e, agora, 44. Até olhar bem para as duas e perceber que elas não tinham quadril, coxa, panturrilha. Tinham cambitos. E eu, modéstia à parte, tenho pernas que me rendem elogios de vez em quando e meu quadril é qualquer coisa menos estreito.
Se não sou plus size, ótimo; se sou, melhor ainda, agradeço por ser considerada do mesmo "grupo" de tantas mulheres lindas e, acima de tudo, autênticas.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Segredos, Conflitos e Amor - Cap. 38

            — Na sétima série ela teve, sei lá como explicar isso… uma crise de depressão. Eu nunca soube o motivo. Mas durante essa crise ela cortou o pulso esquerdo e só não cortou o direito também porque a mãe dela chegou na hora certa. Ela começou a fazer tratamento com psicólogo, mas depois de seis, sete meses ela parou. E no começo desse ano, que foi quando ela escreveu aquilo, ela fez a mesma bobagem. Só que quem a encontrou dessa vez fui eu. Depois disso ela me contou o que já tinha acontecido, mas não o porquê.
            Calina estava em choque, nunca imaginaria que Maria tinha feito uma coisa dessas, querer tirar a própria vida… logo ela, que sempre parecia tão feliz…
            — Não comenta nada com ela, ta? Já foi difícil pra ela passar por isso duas vezes, e ficar lembrando não ajuda em nada. — Calina fez que sim com a cabeça — Agora vamos voltar porque o sinal bate daqui a pouco.
            Os dois chegaram na mesma hora que Maria, que era seguida pelos olhares de todos. Alguns ainda comentavam bem alto:
            — É difícil ter que estudar na mesma escola que gente baixa, sem nível e sem educação…
            Maria simplesmente olhava com expressão de divertimento e comentava com Calina:
            — Eles que ficam gritando e eu que não tenho educação?
            O assunto daquele dia era a discussão do dia anterior. Maria era apontada como a errada da história, quem tinha começado sem motivo algum, mas ela simplesmente se fingia de surda. Não deixava os comentários alterarem seu bom humor. Alice, por outro lado, era vista como a vítima pela maioria, pois pouquíssimas pessoas tinham ouvido o que ela tinha dito de Maria. Mas, sendo adepta do “falem bem ou falem mal, mas falem de mim” não se incomodava, pelo contrário, estava adorando a situação. 

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Participação de Amigos - Luisa Lima

Minha correria com o ENEM acabou, então cá estou com uma postagem nova. O texto dessa vez é da Luisa Lima e só o que vou dizer é: meus. Deuses. (oi, semideuses! ^-^) Quaisquer outras opiniões, deixo por conta de vocês! 

Apenas desenhos
Já estava sem motivos para fugir.
Eu sentava em um canto, quieta, imersa em meus desenhos, esquecendo de tudo à minha volta. Era uma boa maneira de passar despercebida por quem quer que viesse falar comigo, poucas pessoas reparavam em um canto com sombra abaixo de uma árvore com o cheiro de assados da cantina.
Parte de mim queria ouvir aquela voz, mas eu sabia que não adiantaria nada. De que adianta falar com ele, se ele não enxerga nem um palmo à frente do nariz? Podia ser meu melhor amigo, mas havia uma parte de mim que ele nem fazia ideia que existisse, e essa parte se apoderava do resto do mesmo jeito que as orquídeas cresciam nos galhos daquela árvore. E ele lá, sem saber da existência daquela delicada flor em mim.
— Do jeito que é branca, ninguém vai te ver encostada nessa parede.
Lá vinha aquela voz.  Um calor se apoderava de minha face, mas eu respirei fundo.
— Então como me achou? Que eu me lembre, tomei banho hoje, não devia me farejar.
— Ui, que garota brava. Relaxa, só ia até a cantina.
— Então se apresse, antes que a torta de frango acabe.
— Como sabia que eu ia pedir isso?
— Você só come isso... Vai lá, antes que eu adivinhe seu café da manhã também.
Bom, pelo menos ele seguiu o estômago dele e saiu. Se o Pedro vir esses desenhos, já vai começar a me perguntar mil coisas, e eu não quero falar no que me inspirei. Na verdade, eu nunca falo; isso não importa.  Agora eu estava em paz de novo, podia desenhar.  Alguns traços não estão bons, o sombreado está fraco... Quem sabe escutar algumas músicas me motiva a terminar.
Eu estava quase terminando, tinha esquecido do resto do mundo e já estava cantando em uma voz não tão baixa a música que escutava. Subi os olhos para ver se alguém vinha com uma camisa de força achando que eu era louca quando me deparei com aqueles olhos castanhos me observando. Ah não, não era eu, era o desenho que ele observava.
—Pedro, caramba, dá pra não me assustar?
— Desculpa, se não tivesse visto seu desenho teria passado achando que não tinha nada aqui.
Ele se sentou, pegou meu fone e encarou a folha.
— Essa música é bonita.
— Fala isso porque foi você que me mostrou.
— Claro, por isso é bonita. — ele apontou para o desenho — E esse cara tem o cabelo grande demais.
— Ele tinha o cabelo assim quando o conheci. Disfarçava as orelhas.
— Mas ninguém falava com ele.
— Eu não sou ninguém? Sem piadinhas sobre minha transparência.
— Você não é ninguém, é alguém. Alguém muito tímida que o garoto deve ficar procurando por aí, embaixo de árvores.
— Pra quê? As minhas amigas não ficam escondidas, ele podia ir lá falar com elas.
— Talvez ele não queira.
Sem me deixar responder, começou a cantar a música do fone. Cantava baixo, sua voz era grave e eu começava a ficar mais vermelha.
— ...Eu vejo as suas cores no seu olho tão de perto, me balanço devagar, como quando você me embala, o ritmo rola fácil, parece que foi ensaiado, e eu acho que gosto mesmo de você, bem do jeito que você é...
— Por que tá me deixando vermelha?
— Porque é legal.
— Caramba, dá pra parar? Você vem aqui, me atrapalha, fica bisbilhotando meu desenho, tira meu fone, fica me provocando, que tipo de amigo você é que não quer me deixar em paz?
— O tipo de amigo que não quer ser mais só amigo.
Acho que não preciso dizer que fiquei sem fala. Seus olhos fitavam os meus, ele colocou uma das mãos em minha nuca. A partir daí não vi mais nada, só senti seus lábios quentes, uma vontade reprimida de abraçá-lo se manifestou, e o caderno de desenhos caiu no chão.
Ali havia o desenho de um casal de jovens, sentados à sombra de uma árvore.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Participação de Amigos - Silas Castro 2

Sim, DOIS. rs E vocês podem esperar por mais participações. Já tenho algumas encaminhadas ;)

O Lixo e as Rosas
Eu estava voltando para casa, mal aguentando manter os olhos abertos e o peso do meu corpo sobre minhas pernas. Virei a esquina em direção ao ponto de ônibus e sem querer esbarrei na caçamba de lixo.
Então ouvi um barulho de algo caindo, era um buquê. Abaixei-me para pegá-lo, só para manter a calçada limpa para em seguida continuar meu trajeto, mas... As rosas eram frescas, não pude deixar de notar. O celofane tinha sido cuidadosamente arrumado. Só faltava o cartão, que provavelmente ainda estava no lixo.
Lembrei-me do buquê que entreguei para minha namorada um mês antes. Imaginei-me no lugar da pessoa que tinha comprado aquele para alguém de quem gostava. A sensação não foi nada boa.
O que levaria uma pessoa a descartar algo tão bonito? Talvez um pedido de namoro recusado... A descoberta de uma traição... A cena começou a se passar diante dos meus olhos.
Um rapaz vinha com as flores na mão pela mesma rua na qual eu havia passado. Também parou ao lado da caçamba, olhou para frente e viu a fachada da casa onde iria entregar seu presente, porém antes de dar seu primeiro passo a porta se abriu saindo sua amada e para sua surpresa um homem junto com ela ambos de mãos dadas. Antes de partir a mulher segurou o braço do amante e puxou para darem um beijo, fazendo os ombros do rapaz das flores caírem em desânimo. A moça despachou o homem para o carro e voltou para dentro enquanto o automóvel arrancava. As rosas não passaram daquele ponto.
Não. Muito trágico. Prefiro acreditar que quem recebeu o buquê era alérgico a pólen. Ou que era um sinal de um término amigável. Possibilidades ínfimas, porém mais alegres.
Meu ônibus chegou. Devolvi as rosas para o triste lugar em que estavam e corri para o ponto. Afinal, eram só flores no lixo, nada importante.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Segredos, Conflitos e Amor - Cap. 37

            — Você sabia! E ainda assim não me falou nada! Que belo amigo eu tenho, hein?
            — Obrigado pela parte que me toca.
            — Ha, engraçadinho. Ta, que a letra era dela você sabia, mas você também sabe do que ela estava falando? Ela parecia um pouco desesperada.
            Ainda com cara de culpa no cartório, Sasha abriu a boca, mas nenhum som saiu.
            — Ok, você sabe, agora fala, eu suplico.
            — Por que você não pergunta direto pra Maria? Não é mais fácil?
            — Não, não é. Se ela não comentou comigo quando aconteceu, porque falaria agora? E eu fiquei meio preocupada depois de ler aquilo. Sasha, por favor…
            Ele respirou fundo e bufou. Ele queria contar, mas ao mesmo tempo isso parecia muito errado. Se Maria não tinha comentado nada era porque não queria que Calina soubesse. Mas se as duas eram melhores amigas…
            — Ta, eu conto, mas confio na sua capacidade de guardar segredos. Vem cá.
            Os dois foram para a cantina, vazia àquela hora.
            —Você já reparou que a Maria sempre usa o relógio no braço esquerdo e durante a Educação Física ela coloca uma munhequeira ou amarra um lenço no mesmo lugar?
            — Já, mas o que isso tem a ver com o diário?
            — Jura que você nunca se perguntou por que ela faz isso?
            — Sempre achei que fosse só porque ela gosta.

            Ele respirou fundo antes de continuar.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Tão Mais Fácil...

Sabia que poderia te encontrar a qualquer hora andando por ali. Normal. Aquele seu sorriso Trident, que sempre me matou de inveja. Branquinho, retinho e... meio psicopata. Bem como eu. Prova de que, apesar de não sermos chaveiros com ímã, tínhamos motivos para ser atraídos um pelo outro. Mas não deu. Fazer o quê?
Nada.
Já de longe eu te vi, rindo, risada escandalosa, piadas de gosto bem duvidoso. Seus amigos te olhando de esguelha e desconhecidos fugindo com medo de serem contagiados por sua doença. Foi aí que não aguentei e ri também. Péssima escolha.
Tentei ser discreta, mas você sabe que isso nunca foi meu forte. Bastou levantar o olhar para perceber que uma das meninas andando com vocês tinha percebido o meu divertimento e apontava em minha direção, também sem nenhuma vergonha pela falta de classe do seu ato. Você inclinou a cabeça para perto dela e logo em seguida olhou para mim.
Fez uma careta, sorrindo, e se aproximou. Quantos minutos de silêncio? Um? Cinco? Sei lá, acho que não importa... sabemos perfeitamente que estávamos pensando a mesma coisa: cadê aquela amizade que queríamos manter? Cadê a saudade do começo? Onde está a tristeza do fim? Talvez tenha ido embora, simples assim, sem nenhuma explicação complexa sobre "fins".
- Eu já disse que você precisa parar de ser escandalosa.
- E você, de ser doente.
- Minhas namoradas é que precisam de uma dose extra de juízo... Tenho... que voltar. Até New York?
- Até.
Tão mais fácil assim. Sem mágoa. Só boas memórias. E ótimas piadas internas para sempre.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Segredos, Conflitos e Amor - Cap. 36

Meu povo, voltei! E agora com duas mãos ^-^ posso voltar a digitar rs Sim, faz tempo que não posto a série, mas aqui vai ela:

            Era informação demais para processar em menos de meia hora, e Maria não sabia por onde poderia começar a arrumar aquela bagunça no seu cérebro e no seu coração, que acelerava cada vez mais. Uma pergunta martelava na sua cabeça: se Calina estava certa com relação a Rafael, será que também estava certa quando falou de Sasha?
            Já em casa, depois da confusão com Maria e Alice, Calina decidiu ler um pouco do livro que ganhou no dia anterior. Assim que o abriu, seus olhos foram direto para o bilhetinho azul, que finalmente fez uma luz se acender em sua cabeça. Ela correu até a sala, abriu a mochila e jogou tudo o que estava dentro no chão. Revirou cadernos, o estojo, os livros e enfim achou, dobrado dentro de um dos bolsos, o pedaço de página de diário. Ela voltou ao quarto e colocou lado a lado os dois papeizinhos. Finalmente descobriu de quem era a letra: Maria. Já fazia tempo que não escrevia daquele jeito, pois dizia que podia ter uma caligrafia melhor, e Calina não reparava muito nisso também, por isso demorou tanto para descobrir. O problema então virou saber sobre o que Maria estava falando, sobre o que ficou tão preocupada a ponto de nem contar para a amiga. Ao invés de conversar com ela, decidiu falar com Sasha, mas só no dia seguinte.
            Para ter certeza de que conversaria com ele, Calina puxou o amigo para uma conversa 20 minutos antes de as aulas começarem.
            — Que desespero é esse?
            — Não é desespero, é curiosidade. Você se lembra daquele papel que te mostrei há um tempo e você achou que a letra fosse da Alice?
            — Lembro, mas e daí?
            — Descobri de quem é a letra. Da Maria.
            Sasha mordeu os lábios e olhou para os lados, com uma cara de culpa.